Notícias / Geral

16 de Dezembro de 2013 às 10:55
Pesquisas recentes explicam o que ocorre no corpo dos apaixonados

Há mais de 400 anos, inspirado na paixão que emanava pelas ruas da capital britânica, Shakespeare anunciava: "O amor é dos suspiros a fumaça; puro, é fogo que os olhos ameaça (...)". Alguns séculos depois, Pablo Neruda, na fria capital chilena, lamentava, "É tão curto o amor, tão longo o esquecimento". Já Fernando Pessoa, angustiado com a pulsante Lisboa do século 20, conformava-se: "Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar". Pelos contornos do calçadão de Ipanema, Carlos Drummond de Andrade emocionava-se: "Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?"

Poetas, escritores, pintores, cineastas. De um jeito ou de outro, eles viveram tentando entender o que é, afinal, o amor. Ainda que tenham sido bem-sucedidos em interpretar o fenômeno, falharam em explicá-lo. Função esta que acabou nas mãos da ciência. Após longas décadas de estudos, os pesquisadores ainda não têm todas as respostas, mas garantem: não é o coração o principal órgão neste processo.

Quando o publicitário Maurício Corrêa, 26 anos, viu pela primeira vez a estudante Franciele Kich Giongo, 20, sentiu um misto de alegria e desejo. Estavam em uma festa com muita gente mas, para ele, naquele momento, era como se ninguém mais estivesse lá. Franciele conta que, quando o primeiro encontro ocorreu, a ansiedade tomou conta do corpo.

- Foi quase uma sensação de pânico, muito difícil de explicar - relembra.

Eles ainda não sabiam, mas já viviam os primeiros sintomas da paixão, algo que faz parte da natureza humana tanto quanto o medo ou a fome. Para muitos estudiosos, a atração entre duas pessoas nada mais é do que uma estratégia evolutiva para propagar a espécie.

O responsável pelo turbilhão de sensações que percorreram o corpo dos dois jovens - e de todos aqueles que encontram a pessoa amada - é o cérebro, órgão que regula diversas substâncias, como hormônios e neurotransmissores, liberados na circulação quando se está apaixonado.

Conforme o médico André Palmini, chefe do serviço de neurologia do hospital da PUCRS, a região cerebral que é ativada quando vivemos um amor intenso faz parte de um sistema muito primitivo, montado para agir em tudo que é fundamental na sobrevivência e perpetuação da espécie. Entra em ação quando necessitamos satisfazer instintos básicos, como copular e proteger os filhotes:

- O sistema cerebral de recompensa é ativado, por exemplo, quando precisamos comer. A perspectiva de colocar na boca um alimento do qual necessitamos faz com que este sistema estimule a produção do hormônio dopamina, que provoca a sensação de satisfação. Cada vez que vemos a pessoa amada ou tocamos nela, a mesma região cerebral é ativada.

Os opostos se atraem

Na festa em que Maurício e Franciele se conheceram, havia várias outras pessoas. Meninas arrumadas e atraentes, meninos fortes, bonitos e bem-vestidos. Mas o publicitário só tinha olhos para uma mulher. E essa mulher, olhos só para ele. O que define a escolha de um parceiro ainda não é totalmente esclarecido pela ciência, mas estudos recentes já apontam fatores que podem ajudar a desvendar esse mistério. Um deles é que preferimos pessoas cujo sistema imunológico seja complementar ao nosso, para podermos gerar descendentes mais variados geneticamente, ou seja, com maior capacidade de resistir a doenças, defende Renato Flores, professor do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

E isto, mesmo que não nos demos conta, sentimos logo de cara. É aquela famosa "química" que rola, ou não, no primeiro encontro. Mas o amor é complexo, muito complexo. Como somos animais racionais, não só motivados por instintos, as questões sociais também contam bastante nesta escolha. Ainda que busquemos pessoas opostas no quesito imunidade, temos a tendência de nos apaixonar por aquelas parecidas em outros aspectos, como o nível social, cultural, grupo étnico e religioso. De algum modo, nos apaixonamos por pessoas que são diferentes e parecidas conosco ao mesmo tempo.

Três fases

Há dois meses namorando oficialmente, Franciele e Maurício não tremem mais ao se encontrar. Em compensação, eles confessam que ainda ficam um pouco nervosos quando se veem, e permanecem horas pensando um no outro quando distantes, imaginando os beijos, abraços e carinhos. Eles estão vivendo o que muitos especialistas chamam de "segunda fase do amor".

Há cerca de 30 anos, pesquisadores identificaram que os relacionamentos amorosos são constituídos por três etapas: atração, envolvimento e vínculo. Em cada fase, diferentes hormônios atuam para manter o casal unido, explica a psiquiatra e Coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Carmita Abdo.

No envolvimento, a dopamina - responsável pela motivação, satisfação e aceleração do coração - e a norepinefrina - que pode gerar alegria, energia excessiva, falta de sono e apetite - são os principais hormônios atuantes. Viver esta fase é muito bom, mas por melhor que seja, apaixonar-se é estressante para o corpo. Ainda que, para Franciele e Maurício esse prazer pareça eterno, os especialistas garantem que tem data e hora para acabar:

- Cogita-se que o período de paixão mais intensa não ultrapasse três anos, pois nosso organismo passa por mudanças químicas que o protegem.

Do contrário, o corpo não suportaria por mais tempo as demandas dessa situação. O apaixonado, no auge da paixão, dorme pouco, não se alimenta direito, não consegue focar em qualquer aspecto de sua vida que não seja o objeto de sua paixão. Calma! Isso não é motivo para desespero. A excitação provocada pela paixão, depois de certo tempo, pode ceder lugar a uma terceira etapa, considerada pela psiquiatra Carmita como um sentimento mais sólido, embasado em admiração.

Esta é a fase do vínculo, que faz os casais criarem uma ligação mais forte, que pode evoluir para o sentimento de amor romântico, e manter o casal junto por anos a fio. Ou seja, a paixão é apenas uma das fases do amor, e não sua definição plena. Na terceira fase, são outros hormônios que entram em ação. Oxitocina, conhecida como hormônio do amor, é considerada fundamental para manter o relacionamento por muitos anos. Ela é uma pequena proteína produzida no cérebro, capaz de estimular as regiões cerebrais que controlam as emoções e o comportamento social.

Chamado de hormônio da fidelidade, a vasopressina também entra em campo, estimulando a formação de vínculos sociais e de comportamentos reprodutivos, incluindo o sexual e a ligação entre pais e filhos. Quando essas substâncias são ativadas e enviadas à circulação, favorecem a formação de laços afetivos mais intensos e preparam terreno para um relacionamento estável.

Essa fase, para o geneticista Renato Flores, é uma estratégia evolutiva de manter a ligação entre o casal até que um descendente seja gerado e preparado para o mundo. E ela também tem prazo de validade:

- A tendência é que o casal siga se amando pelo menos até o filho crescer. Como os bebês humanos são dependentes e precisam do cuidado dos pais por algum tempo, fomos projetados a permanecer juntos durante esse período - explica Flores.

Conforme o geneticista, esta fase de ligação entre duas pessoas costuma durar de quatro a seis anos. Depois disso, ocorreria o que ele chama de "etapa da renegociação": se houver alguém melhor lá fora, a tendência é trocar de parceiro para gerar os próximos descendentes. As objetivas e nada poéticas conclusões científicas ainda não têm respostas sobre o amor eterno. Casais que passam a vida inteira juntos seguem sendo um desafio à ciência - e uma esperança aos últimos românticos.

Ciência sem romantismo

Por que os relacionamentos acabam?

Conforme a psiquiatra Carmita Abdo, o apaixonado geralmente projeta no outro (objeto da sua paixão) qualidades e virtudes extremamente idealizadas. Quando a paixão diminui naturalmente, a idealização é substituída por uma visão mais realista do parceiro, o que pode decepcionar e constranger. Este e outros fatores cotidianos, como a rotina, estresse e brigas podem fazer com que o sistema de recompensa do cérebro, sempre ativado quando estamos com a pessoa amada - e que resulta em sensação de prazer e satisfação - pare de ser estimulado na presença do parceiro. Aí, o que resta é buscar a recompensa em outro lugar.

Por que os homens se sentem atraídos por mulheres no estilo "popozuda"?

A biologia evolutiva afirma: eles valorizam seios fartos e quadris grandes como indicadores de maior capacidade da mulher amamentar, gestar e dar à luz. E por que as mulheres gostam de homens fortes e bem-sucedidos? A resposta também está na biologia evolutiva. Elas valorizam tórax e ombros largos, como indicadores da capacidade de bem prover a família e transmitir boa carga genética aos descendentes.

O amor vicia?

Pode-se dizer que na primeira fase (atração), nos sentimos como que dependentes, "viciados". É nesta fase que há intensa liberação de dopamina no organismo, o que aumenta a sensação de recompensa afetiva. O mecanismo cerebral é semelhante ao de dependência de cocaína, explica a psiquiatra Carmita Abdo. 

Fonte: Zero Hora

Veja mais